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Em 18 de maio de 1988, Fernand Schwarz, membro da Nova Acrópole da França, antropólogo e historiador das religiões, nos dava, em uma conferência intitulada "Alquimia e Evolução Espiritual", as chaves para compreender melhor os fundamentos dessa ciência tradicional. Nós reproduzimos, ao longo deste artigo, a essência deste tema, esperando que nos possa trazer essa visão extraordinária que restitui ao homem sua dimensão de ser em evolução, capaz de cumprir seu destino em uma participação ativa nos mistérios da Natureza.
O nome alquimia evoca freqüentemente a imagem célebre da Idade Média de um ancião ocupado em seu laboratório, em torno de instrumentos, cada um mais misterioso que os outros, com uma única obsessão: a descoberta da Pedra Filosofal.
Na verdade, essa ciência de transformação dos metais ou plantas não era estranha nem aos árabes nem aos egípcios, nem mesmo aos chineses ou aos povos pré-colombianos, mas, pelas suas características fundamentais, que são de construção de uma visão simbólica das mutações naturais, tem suas raízes nas próprias origens da humanidade. Todas as tradições mágico-religiosas, conhecidas por nós desde a mais alta antiguidade, traduzem com efeito a preocupação dos nossos ancestrais em dar um sentido profundo às mutações naturais, das quais eles eram as testemunhas ou até mesmo os protagonistas.
Tomemos, por exemplo, a extração dos metais. Para o homem dito "primitivo", o metal era o coração vivo da pedra inanimada. O extrato da sua essência material não era nada além da decomposição e recomposição da natureza de uma série de purificações. Face à pedra bruta, símbolo da inércia, da "luz morta", o metal puro opunha sua extraordinária leveza à sua dureza, todos os dois símbolos de uma matéria capaz de desposar as formas do espírito.
A alquimia traz uma transformação profunda da natureza das coisas, mantendo, contudo, um padrão natural. Ela é, neste sentido, uma ciência do próprio ser.
Freqüentemente, tenta-se dar à alquimia a qualidade de ancestral da química. Esta concepção da alquimia não pode de forma alguma nos conduzir à compreensão, já que a química tem uma abordagem absolutamente diferente dos fenômenos naturais.
Certamente, em alguns casos, trata-se de uma questão de mutação natural. Mas, enquanto a química é baseada na observação dos fenômenos, na direção do exterior (observador) para o interior (componentes da matéria), a alquimia, ao contrário, observa os fenômenos a partir do interior em direção ao exterior, portanto, no sentido da essência para a aparência formal.
Com a química, nós podemos falar de transformações, estudar a transformação da aparência dos seres e estabelecer uma classificação baseada em um princípio de identidade: A é A, mas não pode ser B, pois eles diferem em forma. Com a alquimia, abre-se para nós o mistério da transmutação, acessível pelo poder da analogia entre o observador e o ser em transformação. Há, assim, duas vias complementares de acesso à compreensão da vida. Dessa forma, podemos dizer que a alquimia pode ser integrada à química apenas porque trata, em última análise, das transformações inerentes a toda transmutação.
Precisa-se compreender, de fato, que um homem pode se transformar facilmente se ele utiliza todo tipo de disfarces, dos mais grosseiros aos mais nobres, mas que lhe será muito mais adequado transformar sua natureza profunda para que a sua nobreza sobressaia. Tal é o apaixonante desafio que se oferece a quem deseja compreender os princípios da alquimia.
Uma ciência objetiva supõe a aquisição de técnica precisa, como uma interface entre o observador e o observado. Os resultados obtidos não consideram o estado da alma do observador, devendo esta tornar-se o mais distante possível para alcançar a objetividade. É por isso que ele pode ser mesmo substituído por um computador.
Esta mecânica do espírito é acessível a todos sem profundos questionamentos e é isto que faz com que a pedagogia de uma ciência assim conduzida seja efetivamente simples.
Com a linguagem alquímica, nós nos encontramos defronte a uma outra forma de pedagogia que só supúnhamos alcançável nos povos nativos. Podemos dizer que a linguagem alquímica é, com efeito, uma poética que diz respeito essencialmente à imaginação.
Assim, não descrevemos um texto alquímico como um enunciado matemático. No entanto, freqüentemente encontramos códigos secretos e histórias fantásticas pondo em cena as criaturas que só existem no imaginário. Isto é, de certa forma, desanimador e pode ser um muro para aqueles que não fazem esforço imaginativo. Compreender o interior implica então que nosso próprio mundo interior seja suficientemente rico de imagens simbólicas, prontas a entrar em ressonância com as sugestões do texto. Não poderemos compreender se não podemos ver o que é sugerido. Por que esta aparente barreira que faz muitas vezes da alquimia uma ciência hermética?
A alquimia é uma arte antes de ser uma técnica. É a arte do amor ou a arte real, como diziam os alquimistas da Idade Média. Sua característica hermética não é outra coisa senão a marca de respeito a todo ser vivo. Pode-se tocar algo a partir de um simples contato físico, mas isto não nos dará nada além de um conhecimento superficial, passageiro e aleatório. Tocar seu coração nos abrirá, ao contrário, a verdadeira dimensão, aquela do ser cujo corpo é apenas uma vestimenta. Tudo isto constitui a compreensão profunda da linguagem simbólica.
O conhecimento alquímico se estabelecerá pela atitude de fazer vibrar nossa corda interior em harmonia com aquela do ser que desejamos conhecer, quer se trate de um humano, de um animal, de uma planta e - por que não? - de uma pedra.
Tudo é vivo para o alquimista. Sua preocupação é aprender a arte de dialogar com o que é vivo em cada coisa, pois com essa ligação poderá processar transformações.

A alquimia ou a arte da circulação

Podemos agora compreender melhor o credo fundamental do alquimista: "Libertar o espírito pela matéria e libertar a matéria pelo espírito."
Esta dupla libertação se exprime pela existência de uma enorme circulação entre as regiões mais densas do ser e aquelas mais sutis. É por isso que falar da alquimia material ou da alquimia espiritual é um contra-senso.
Toda criatura é uma simbiose entre uma Idéia e uma Substância. A alquimia se interessa pela relação que os une, relação que não pode ser nada além de paradoxal, dada a antítese que existe entre estes dois mundos. Só a Idéia da circulação pode suportar o paradoxo dissolução e coagulação, uma outra fronteira da alquimia, que ilustra bem esta circulação. Dissolver e recompor o tanto de vezes que for necessário para obter a simbiose mais perfeita entre matéria e espírito: a pedra filosofal.

Pensamento e ação
PENSAMENTO: Princípios, Arquétipos, Inteligibilidade
IMAGINAÇÃO: Sonho, Concepção, Símbolos
AÇÃO: Realização, Matéria, Sensibilidade

Sabemos verdadeiramente unir todos os nossos atos a nossos pensamentos e fazer de nossas ações o fermento de novas idéias? Isto parece simples, mas este paradoxo é efetivamente a chave de toda obra alquímica. Como fazer para ter a motivação necessária, expressa em termos de energia, para transformar nosso ambiente segundo o ideal que estabelecemos para nossa vida?
Em nosso tempo, pôr em ação uma idéia torna-se cada vez mais difícil. Vemos freqüentemente o homem renunciar a seus projetos e até mesmo a seus ideais. Assim, podemos dizer que apenas um esforço de concretização de nossas Idéias pode nos fazer mudar profundamente.
Somos o resultado de nossas obras. Modificar a obra é nos modificarmos. É um precioso florescer, e é em todo caso a melhor "receita" anti-stress que existe. Não colocar essa idéia em prática é uma fonte de bloqueios internos, de amargura e de desencorajamento. O homem confrontado entre o pensamento idealista e a realidade concreta encontra como saída a preocupação individualista. Deste sentimento, sobrevêm a insegurança e os pensamentos sem o compromisso com uma concretização. E, diante disso, fecha-se inelutavelmente o mistério alquímico.

Como reconciliar o irreconciliável?

Toda união pode se traduzir em termos do amor. O problema da circulação entre o espírito e a matéria se situa, pois, em um plano que não está nem em um, nem no outro, é um tipo de interrelação caracterizada pela afetividade. Toda paralisação na circulação exprime uma "constipação do afetivo". Quando, por exemplo, somos paralisados em uma situação de pânico, somos simplesmente bloqueados: a solução que poderia nos salvar e que se situa em um plano mental (se eu agir de tal forma, então acontecerá isto...) não encontra um caminho de manifestação real da ação.
Este caminho é justamente o caminho da imaginação. Imaginar com determinação um objetivo nos permitirá disparar o motor da ação. É este próprio contato que encontramos em todas as tradições que nos apresentam os mundos em uma divisão ternária e funcional.

A interrelação, sustentáculo da imaginação

Podemos conceber, na linha que acabamos de expor, que o universo vivo, ao qual o homem pertence, funciona graças à interação de pensamento e ação em uma interrelação que podemos chamar da imaginação.

PENSAMENTO: Princípios, Arquétipos, Modelos atemporais
IMAGINAÇÃO: Sonho, Concepção, Símbolos
AÇÃO: Concretização, Matéria, Temporalidade

O mundo da Imaginação é tão real como um objeto ou uma idéia podem ser. Sem ele seríamos como animais, incapazes de crer, por exemplo, no cinema, que nos faz rir ou chorar pelo efeito de uma imagem projetada sobre uma tela, que desperta veículos emocionais ou afetivos em nós mesmos.
O mundo de imagens que concebemos em sonho ou em vigília faz parte do mundo da imaginação. A Imaginação é o espaço de todos os paradoxos.
É, portanto, nesta região perigosa que os fantasmas se abrigam, e também, ao mesmo tempo, é este jardim secreto, situado fora do tempo, verdadeira idade de ouro na qual nossas ações possuirão o entusiasmo, como se possuíssemos uma fonte de energia incalculável. E que homem poderia viver sem este conjunto de imagens estruturais que dão um sentido à vida? Não é neste mundo que se situa a realidade humana, aquela de um ator representando um personagem no teatro da vida?

A Imaginação criadora, espaço da evolução espiritual

Retornemos a esta concepção da alquimia como circulação incessante de energia. Nós falamos anteriormente de cordas que vibram em nós para fazer vibrar tudo que nos rodeia. Estas cordas são nossas imagens interiores, quintessências do mundo concreto que transformarão, por exemplo, uma simples árvore no símbolo eterno do eixo do mundo, mas essas cordas são também os poderes de condensação das idéias nos nossos atos. Ser capazes de extrair de nossos atos uma energia que ultrapassa o ato próprio nos torna leves na plenitude do ser. Agir de forma diferente é apenas uma forma de usura da qual sairemos vazios e inanimados. A arte alquímica permite um pouco mais, como a transmutação da matéria liberta em energia excedente. O importante é que esta energia possa ser controlada para que ela não seja a própria imagem de uma bomba atômica, dispersa a todo vapor e perdida para sempre.
"Dissolver e coagular", transportar-se pelo entusiasmo de um ato que vivifica nossa imaginação e reunir estas energias para nos reciclar com novas ações, isto pode ser considerado a verdadeira arte real.
Então o mistério da pedra filosofal se desvela diante de nossos olhos como o ser empenhado na circulação das energias e na arte de transfiguração de tudo que ele toca: a pedra filosofal no reino mineral transmutará o chumbo em ouro; no reino vegetal, ela acelerará a fabricação dos elixires e, no plano humano, ela será este ser de luz capaz, pela sua presença, de abrir o coração dos homens à procura de seus pontos mais elevados. Como compreender de outra forma que Cristo tenha sido comparado, na Idade Média, àquela famosa pedra filosofal? Como compreender que outros homens tenham conseguido transformar, a partir dessa forma de história, não somente seus contemporâneos, mas gerações inteiras que os sucederam?

Conclusão

Fernando Schwarz nos relembra a disciplina inerente a todas as questões alquímicas, que são as verdadeiras provas do candidato. Esta disciplina transparece nas linhas anteriores, mas nossos leitores poderão se perguntar: como fazer concretamente para realizar esta pedra filosofal, fonte de toda evolução espiritual?
Através do amor, chave central da alquimia, desde que ele se traduza em um regozijo duradouro ou que signifique uma irradiação da força profunda dos seres. Entre estes dois pontos se situa a simples necessidade do candidato. Se ele deseja conhecer o que é vital para ele, a porta do mistério alquímico poderá se abrir. Caso contrário, se houver uma simples curiosidade intelectual, a porta se fecha. E, então, a questão do "como fazer", intenção artificial nascida no intelecto, esconderá a realidade de um "porquê fazer" mal definido.
Fernand Schwarz nos alerta: "Aquilo que não tem o porquê procurará sempre o como". E nós poderemos acrescentar que de como em como este homem perderá sempre mais oportunidades de descobrir em si o porquê.
Se as escolas iniciáticas têm sempre imposto duras provas a seus candidatos, parece que é justamente para julgar sua necessidade de adquirir este conhecimento: se estariam preparados para a série de sacrifícios inerentes a toda transmutação interior; se seriam suficientemente prudentes para ser respeitadores da extraordinária sabedoria de que poderiam ser depositários ou se seriam apenas simples falsários, orgulhosos de seus diplomas, mas incapazes de sentir a mínima compaixão diante do drama da vida. Eles teriam que, para citar uma última máxima alquímica,

"SABER, PODER, OUSAR E SE CALAR ..."

Compilado por Frédéric Blanchard