| Recordações e Reminiscência |
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| Escrito por Administrator | |||
| Ter, 06 de Outubro de 2009 18:10 | |||
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O tema que vamos tratar é duplo, mas não contraditório, posto que ao falar tanto de recordação como de reminiscência, falaremos de uma das condições próprias da consciência humana: a memória. Assim, enfocaremos dois tipos de memória: recordação e reminiscência. Não podemos nos conformar dizendo simplesmente memória; devemos especificar uma forma talvez mais concreta, mais corrente e cotidiana, que é a recordação; e outra mais sutil, mais diluída e difícil de precisar que é a reminiscência. Uma e outra são memória. Afinal, o que para uns é uma faculdade maravilhosa e uma autêntica bênção, para outros é algo diferente, e para os filósofos é talvez o mais sugestivo com o que conta um homem. A memória abarca um âmbito muito complexo já que a encontramos no nosso mundo emocional, no nosso mundo mental e inclusive nas alturas do nosso mundo espiritual. Geralmente, nos referimos à memória sob um aspecto da consciência humana que tem quatro funções: receber, reter e, em um dado momento, reconhecer e recordar. Destas quatro funções a que mais nos importa é a última: a recordação, que é trazer do passado uma idéia, um fato, uma experiência, um sentimento ou, em geral, algo que alguma vez vivemos; planta-lo novamente no presente e reconhecê-lo como nosso, ou seja, como algo que nos aconteceu. Entretanto, apesar do interesse que desperta em nós este processo de recordar, não devemos esquecer a enorme importância que têm as três funções prévias à recordação e, sobretudo, as de receber e reter; essas funções que se realizam quase inconscientemente, mas que revelam a capacidade de discernimento que o homem deveria desenvolver paulatinamente. Deveríamos perguntar o que recebemos e retemos: se é tudo o que vem ou aquilo que anteriormente decidimos que vamos assimilar, porque assim nos convém ou porque nos é benéfico. Recordação é a capacidade que temos de atrair à consciência presente algo que estava no passado, algo que de repente se revela claro e nítido e volta a viver-se de novo. É como se a recordação nos apresentasse a possibilidade de viver muitas vezes um mesmo acontecimento, mas sem necessidade de repetir a circunstância, porque é essa a função psicológica que nos permite refazer o cenário. Perguntemos agora quem recolheu essas experiências e as trouxe ao presente. Ou dito de outra maneira, que parte de nós mesmos teve a possibilidade de captar experiências antes, mantê-las, e no momento necessário, voltar a convertê-las num acontecimento atual. É interessante que possamos encontrar respostas para essas questões. Vejamos algumas. Para a filosofia tradicional - que não descarta a psicologia - o homem, ainda que seja uma unidade funcional, não é um único elemento, não é unicamente um corpo. Em linhas gerais, o homem é composto de uma personalidade material, uma máscara, uma cobertura, uma casca que nos permite aparecer ante o mundo: é o corpo mais as emoções e a mente racional; e de outra parte espiritual, onde a matéria já não interfere, onde seus elementos constitutivos são altamente sutis, e onde poderíamos situar uma mentalidade completamente desprovida de egoísmos, uma mente pura para a qual a razão, como diria Kant, é uma intuição capaz de captar as coisas com a rapidez do raio, e uma imensa vontade que nos permite ser e não simplesmente estar vivos. Assim, para esta filosofia tradicional, há dois aspectos humanos que são: a persona, o material; e outro elemento superior que é o indivíduo, o que não divide, o único, o espiritual, o que permanece. Nosso corpo físico tem memória, e muita; em psicologia chamamos de hábito este tipo de memória. Temos que admirar o bem que se aprende, o bem que se fixa e o bem que se desenvolve. De modo que nossa parte mais densa já trabalha com uma certa forma de memória. Costuma-se falar de memória psicológica propriamente dita quando nos referimos a outro aspecto: a capacidade de recordar emoções, sentimentos, racionamentos, idéias e, em geral, tudo aquilo relacionado com nosso mundo psicológico superior. Aqui passamos do mundo da memória de hábitos, a uma memória um pouco sutil. E, paradoxalmente, descobrimos que a memória, quanto mais baixa e pesada, é mais forte e segura. Podemos recuperar nossas emoções, às vezes, mas em muitas outras vezes, elas se diluem; às vezes, podemos trazer idéias ao momento atual, mas, outras vezes, nos é muito difícil fazê-lo. Não temos a segurança e a fortaleza do hábito. E a memória se faz, todavia mais débil e se dilui mais ainda quando entramos no terreno espiritual, dentro do indivíduo, desse ser indivisível. Ali, as recordações são cada vez mais confusas; temos experiências, mas não podemos precisá-las. A este tipo de memória, Platão e muitos outros filósofos, antes e depois, chamaram de "reminiscência". Não é uma recordação, não tem a força nem o peso do hábito, não tem a claridade de um sentimento, uma emoção ou uma idéia que podemos atualizar, existe, mas é como uma nuvem que, ao querer surpreendê-la, nos escapa. Memória do corpo, memória do espírito. Dessa maneira, denominaremos memória à atualização consciente de todas as experiências que pertencem a nossa persona ou máscara e chamaremos reminiscência a essa atualização de todas as experiências que pertencem ao nosso eu superior. O foco, a atenção e a claridade de recordações estão no corporal, no psicológico e no mental. O que se dilui está no espiritual. Claras são as recordações e tênue é a reminiscência. Mas não são estas as únicas diferenças que há entre recordação e reminiscência. Um fator importantíssimo é o tempo, porque matéria e espírito não são iguais no tempo, não vivem desde o mesmo momento nem até o mesmo momento. Portanto, surge a pergunta sobre quando recolhemos estas experiências. Mas não podemos responder a essa pergunta se não temos em conta, ainda que seja só brevemente, a doutrina da reencarnação. Se para este tema não importa a doutrina da reencarnação em si, com seu porquê, seus prós e seus contras, importa considerar que há algo que permanece e algo que reencarna: um espírito que está sempre e uns corpos que se desgastam e que se vão assumindo como se fossem vestidos, segundo as diferentes necessidades do espírito. O espírito é continuamente, não havendo para o tempo, mas somente para a eternidade. E esse espírito está, às vezes, sobre a Terra, com o corpo, e outras vezes não está na Terra e não precisa de um corpo; gasta um corpo e toma outro. O importante não é a vestimenta, mas aquilo que veste. Algo semelhante nos ocorre do ponto de vista físico: o importante não é a roupa que usamos, mas o que está dentro da roupa. O importante é o interno, o essencial.
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